Quando Van Gogh inventou o Instagram

Carlos Batalha
Carlos Batalha

Sócio-diretor da Agência NBZ - Estratégia Digital


29 OUT 2013

“O que minha arte é, eu sou também”.

Essa frase é de Vincente van Gogh. Para ele, as obras de um artista eram quase uma biografia. Van Gogh sempre levava as coisas a um fervor extremo e compulsivo. Nos últimos dias de vida “ele estava pintando como um demônio, um quadro por dia”, como definiu Simon Schama, em O Poder da Arte. As pinceladas intensas, marcantes, frenéticas, eram menos um estilo artístico e mais uma inquietude psicológica. Um crítico disse que as obras eram “produto de uma mente doentia”. E nem tava de todo errado. O próprio irmão tentava jogar uns papos pra ver se Vincent pintava de uma maneira mais calma, mas não tinha jeito. O esquema dele era vida louca, vida breve.

Suas obras não seguiam a tradição clássica de imagens que buscavam o real. Em Van Gogh, as imagens buscavam o subjetivo. Ele não queria retratar o mundo. Queria expor as muitas dores, e as nem tantas delícias, de ser o que era.

Nos últimos 2 anos o Instagram passou do APP cool, que deixava todas as fotos num clima meio hipster, pra ser a rede social que mostra pra todo mundo que você vai comer #frango #póstreino #happylife #diet #showdaspoderosas #espantaasinvejossas #lovemyself.

Mas, qual a receita do sucesso do Instagram? Bem, se houvesse uma fórmula e eu soubesse já teria embalado e feito uma promoção com frete grátis. Mas acho que a grande sacada foi fazer com que fotos deixem de ser apenas registros de momentos e passem a ser manifestações de sentimento.

Com a possibilidade de edições rápidas, a partir de filtros pré-definidos, as pessoas puderam ir além de exibir fotos para os amigos. Passaram a compartilhar o que estão sentido. As fotos na praia ficam mais radiantes e coloridas, as fotos de solidão perdem as cores e definições, e por aí vai. Tudo visual, intuitivo, às vezes tão diretas, outras num recado velado. E, como todo mundo sabe, uma imagem vale mais que mil palavras. Se bem que Millôr escreveu “então diga isto com uma imagem”. Mas isso é outro assunto.

São famosos os autorretratos (ê, reforma ortográfica esquisita…) de Van Gogh, com direito ao clássico onde se mostra pós automutilação. O equivalente hoje seriam as fotos pós cirurgia plástica, talvez. Cada autorretrato mostrava um sentimento, uma emoção, uma fase da vida. Uns mais alegres, outros menos, com barba, sem barba, chapéu, sem chapéu, cachimbo… tudo na melhor pegada #lookdodia.

Outra obra famosa é Terraço do café à noite. Uma espécie de check-in no lugar legal do bairro. Como ele mesmo disse, queria “pintar a noite in loco: é a única forma de se livrar das cenas noturnas convencionais”. Concluído o quadro, escreveu empolgado ao irmão Theo: “aqui está – um quadro noturno sem ter usado tinta preta, somente azuis, violetas, e verdes maravilhosos”. Eram os filtros na imagem convencional. Não era o café que todos conheciam. Era o café como ele o sentia.

Também como nas redes sociais, Van Gogh desejava a aceitação social. Queria seguidores, likes, comentários. A cada nova obra, a angústia à espera das interações, aquela conferida pra saber se uma nova notificação apareceu, mas nada… E esse não reconhecimento o derrubou.

Vincent van Gogh só virou o gênio famoso e unânime depois de morto. Praticamente um Caio Fernando Abreu…

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