A startup de Eike: da língua dos anjos ao Tomé de Caravaggio

Carlos Batalha
Carlos Batalha

Sócio-diretor da Agência NBZ - Estratégia Digital


03 OUT 2013

No mundo da tecnologia, todo mundo quer ter uma startup pra chamar de sua. Segundo a definição da Associação Brasileira de Startups, “startup é uma empresa de base tecnológica, com um modelo de negócios repetível e escalável, que possui elementos de inovação e trabalha em condições de extrema incerteza”.

Há alguns anos, Eike Batista se tornou o maior criador de startups do mundo. O problema é que só avisou da parte da inovação e modelo escalável. Da incerteza ninguém tava sabendo…Como as startups, criou um conceito, imaginou o cenário ideal, vendeu como grande inovação e prometeu distribuir dinheiro. Depois foi captar grana dos investidores-anjo que, nesse caso, seriam os compradores das ações. E anjo, sabem como é, nunca decepciona. Eike lançou as ações na Bolsa e arrecadou uma grana que o fez entrar no top ten da Forbes e sonhar em ser o novo Tio Patinhas. Mas, agora, anda mais pra Zé Carioca. Como no mundo das startups, Eike sentiu o choque entre ter a ideia e fazer acontecer. E aí, quem antes era anjo, virou São Tomé.

São Tomé, um dos apóstolos, é conhecido pela passagem em que recebe a notícia da ressurreição. Para um apóstolo, isso seria a confirmação da profecia, e fé o faria sentir a verdade do relato, com a certeza própria dos que são tocados pelo Senhor. Mas Tomé quis ter uma comprovação. Caravaggio representou de forma impactante esse momento. O Cristo que se faz humano, oferecendo a ferida como prova de que voltou em carne, daí, encarnado. Jesus puxa as vestes, simbolicamente de peito aberto, e conduz o dedo de um Tomé com olhar cego, de quem enxerga não pelos olhos que querem ver, mas pelo toque do que é real e não se pode negar.

Eike, como as startups, focou nos anjos. Mas o mercado é um São Tomé que exige contrapartidas reais mesmo do messias. Dados revelam que a mortalidade das startups é altíssima até entre as aceleradas por investidores. Menos de 30% de spartups que passam processos de incentivo conseguem validar seu modelo de negócios. Ou seja, apesar de aportes financeiros e consultorias, a maioria não encontra um caminho sustentável. Muitas morrem, outras agonizam, outras pivotam e tentam ressurgir.

De messias abençoado pelos anjos, Eike caiu em desgraça e agora tentará ressuscitar. E ele ainda tem muita grana pra queimar. Já as pequenas startups…

Então, a dica do He-Man no fim da história de Eike é: não basta falar a língua dos homens e dos anjos, ter o dom da profecia nem toda a fé. Como não cantou o Rei, é preciso sobreviver.

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