O que o Corujão da Saúde de São Paulo tem a ver com o Airbnb

Carlos Batalha

Carlos Batalha

Sócio-diretor da Agência NBZ - Estratégia Digital

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16 FEV 2017

Antes de começar, breve spoiler: quem acha que o texto é sobre a guerra intergaláctica entre coxinhas e mortadelas, favor parar por aqui e ir fazer o lanche em outro lugar antes de se decepcionar descobrindo que é só um texto de economia. Grato, voltemos.

A prefeitura de São Paulo implementou um programa que tem por objetivo diminuir a fila de atendimento em postos de saúde remanejando as pessoas para instituições privadas. Até aí, parece apenas um modelo Prouni de saúde, algo como os vouchers educacionais. Mas não é. E o detalhe está no nome: Corujão da Saúde.

A economia compartilhada tem sua beleza em tirar proveito de um excedente que antes era subutilizado (essa nova ortografia..). Vejamos o caso do Airbnb (para quem não conhece, é um Uber de residências, onde pessoas oferecem sua casa para aluguel)‎. O cidadão mora só num apartamento de 2 quartos, tá apertado de grana, e não é antissocial. Daí vem o carnaval, e ele resolve alugar esse quarto excedente pro povo que vai curtir a folia na cidade dele. Ao compartilhar esse excedente, ele multiplicou a função daquilo. E a cidade ganhou um novo “leito de hotel”, mas sem ter tido um novo hotel.

Sabe o CAPTCHA, aquele troço ilegível que você pergunta “pra que diabos serve isso”? Bom, ali está uma das mais elegantes soluções de aproveitamento de recursos excedentes. Um cara chamado Louis von Ahn e sua equipe inventaram aquilo como forma de validar que você era um humano, e não um robô tentando uma interação automatizada. Mas, um dia ele estimou que, diariamente, eram gastas 500 mil horas digitando aquele troço, e ele se perguntou como isso poderia ajudar a humanidade. Então desenvolveu uma solução em que aquelas palavras distorcidas são trechos de livros escaneados e não identificados com precisão. Com isso ele criou um sistema compartilhado onde seus segundos que seriam perdidos digitando aquilo se transformam em validações de escaneamentos. Com isso sistemas aprendem e aprimoram a identificação de caracteres em imagem. Esse sistema já ajudou a digitalizar milhões de documentos entre livros, revistas e jornais, e agora é usado pelo Google Street View para ler corretamente os números dos locais fotografados.

Tá, mas e o Corujão da Saúde nessa história? Muitos grandes e custosos equipamentos de hospitais de excelência ficam ligados 24h por dia, e com um especialista plantonista. Ou seja, durante várias horas ficam ociosos, numa típica situação de capital excedente não aproveitado. O que a prefeitura fez foi criar uma situação de economia compartilhada semelhante ao Airbnb. Ao invés de perder 100% daquele tempo, é mais vantajoso para os hospitais oferecer à prefeitura por um valor menor. E a prefeitura também leva vantagem ao resolver um problema imediato sem o ônus comum a esta operação. No fim, todos ganham. Então, qual capital excedente não explorado está aí para ser viabilizado num modelo de economia compartilhada?